segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Já conhece Ricardo Reis?




Quando se fala em Fernando Pessoa e na sua grande obra é quase impossível não referir os heterónimos, igualmente brilhantes, que este criou. Ricardo Reis foi um deles e de todos o mais clássico. Segundo pessoa, a sua personalidade nasceu dentro dele devida a uma discussão sobre excesso que ele presenciara a respeito de arte moderna. Deixando-se, deste modo, guiar por todo o clima que esta lhe proporcionara. No que respeita a data em que tudo isto aconteceu o próprio Pessoa confunde-nos. Primeiramente, afirmou que ele sentiu a presencia de reis pela primeira vez no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas onze horas. Mais tarde, na carta que escreveu a Adolfo Casais Monteiro, esta data já se encontra alterada, sendo que o ortónimo afirma que ele terá brotado nele no ano de 1912. Outra discrepância é visível na carta astral de Reis. Inicialmente afirma que ele terá nascido em 1887, na cidade de Lisboa pelas quatro e cinco horas, enquanto que na mesma carta que escreveu a Adolfo, já diz que a cidade natal do heterónimo era o Porto.
Reis foi o primeiro heterónimo que despontou no espírito do grande poeta modernista português apesar de não ter sido o primeiro a iniciar a sua obra. Esta começou a ser produzia em Março de 1914 e de forma contínua e intensa não mais parou até 13 de Dezembro de 1933. Quando Fernando Pessoa viu o que escrevia na pele de Reis percebeu que estava perante uma teoria neoclássica.
Este heterónimo é, de todos, o mais parecido com o ortónimo. Tanto a nível físico (moreno, estatura média, anda meio curvado, magro e aparecia típica de um judeu português) como também na maneira de ser e de pensar. Sendo que se distanciam no facto de Reis ser mais adepto do sensacionismo, como o mestre Caeiro.
Tem como profissão médico. É monárquico, daí a ter emigrado alguns anos para o Brasil. Recebeu formação clássica e latinista e foram-lhe transmitidos princípios um tanto ou quanto conservadores que transporta para a sua poesia. A disciplina que o rege está também presente no que ele escreve, assim como a forma dos poetas latinos que ele domina. Para ele todas as coisas são relativas e aceita-as com uma serenidade intensa. Vê a vida por uma perspectiva simples, mas profunda.
Como já foi dito anteriormente, Ricardo foi discípulo de Caeiro. Apesar de ambos valorizarem o sentir fazem-no de formas distintas. O mestre dita que as coisas devem ser sentidas tal como são, já este discípulo corrobora a afirmação do mestre acrescentando que não dêem ser sentidas só como são mas de modo a que obedeça a um certo ideal clássico. Outra característica que absorveu espontaneamente do mestre foi o paganismo.
As concepções do mundo em Reis passam pelo epicurismo (em que o ser humano procura a ausência de sofrimento e de dor, aceitando a morte sem receio e procurando um prazer moderado, sem riscos) e pelo estoicismo (indiferença perante os bens terrenos e valorização das virtudes, onde está presente a aceitação das acção, do Fatum e da morte inexorável, ou seja, deve conformar-se com o que a Natureza oferece sem lutar contra ela). Neste dois conceitos estão implícitos outros dois que são a ataraxia (estar num estado calmo sem qualquer tipo de perturbações) e a apatia (indiferença total perante o que o rodeia).
Viver como Ricardo Reis é aceitar o destino e o que este nos traz, calma e pacificamente, olhando o presente e esquecendo o passado e futuro.

Vive sem horas

Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.
Ricardo Reis, Odes

O Mar Jaz

O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Eolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Netuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
Ricardo Reis, Odes

Acima da Verdade

Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.
.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,
.
Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza
Ricardo Reis, Odes

Não só quem nos odeia ou no inveja

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.
Ricardo Reis, Odes

Estás só.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.
Ricardo Reis, Odes

Anjos ou Deuses


Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nos e compelindo-nos
Agem outras presenças.


Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,


Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.

Ricardo Reis, Odes

"Bocas Roxas", o poema escolhido

Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;
.
Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.
.
Antes isto que a vida
Como os homens a vivem
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.
.
Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas."
Ricardo Reis, Odes


Escolhi este poema de Ricardo Reis como o meu favorito de entre os que li, pois é neste que encontro muito presente uma das temáticas que mais aprecio no Heterónimo de Fernando Pessoa: o paganismo. Sempre tive um fascínio pelas sociedades clássicas onde a adoração aos deuses era moda. O facto de, a estes mesmos deuses atribuírem historias, vivências, personalidades e de os interligarem entre si, veio aumentar o meu interesse. Também Reis parece ter este fascínio pelo clássico que tão bem o demonstra na sua obra. Além do paganismo, outra temática me atraiu a “identidade implacável a que todos obedecemos: o Fado.”
Debruçando-me sobre o poema que escolhi, todo ele apresenta marcas de paganismo/politeísmo (já referidas), assim como do Fatum, Fado ou destino.
O sujeito poético começa por “pintar” um quadro onde cores como o roxo e branco parecem aparecer. O roxo caracteriza a boca dos que estão retratados que possivelmente beberam vinho. O vinho que é o símbolo de prazer e festividade para o homem, mas muito mais para os deuses (a ponto de classificarem Baco como seu Senhor. E o branco símbolo de pureza e paz que comporta consigo a tranquilidade das “testas brancas sob rosas” e dos “antebraços deixados sobre a mesa” (está aqui presente a ataraxia característica de Reis). Estes antebraços caídos que são o símbolo da desistência daqueles que lutam contra o destino que os rege.
O quadro é classificado pelo “eu” lírico como o retrato em que ele e a sua musa, Lídia, estáticos (como em qualquer outro quadro), como que aceitando o destino que lhes é dado. Ao aceitar este destino estão eles, homens, a imitar os deuses, que por ele também são regidos. Até aqui, e na tentativa de aconselhar e recomendar a Lídia que siga esse caminho como ele faz, o sujeito poético adquire um tom moralista como que formando valores (para ele axiomáticos) que pretende por em prática e propaga-los a outros.
É estabelecida de seguida uma comparação entre a vida que os homens levam e a que é levada pelos deuses. A vida que os homens vivem é apresentada como “negra poeira que erguem das estradas”, como que passando veloz de olhos postos não no presente, mas no futuro e com pressa de lá chegarem. A cor que a define (o negro) é por si também muito significativa, pois demonstra (na perspectiva do sujeito poético) a tristeza e o sofrimento de quem leva a vida desta forma. Em suma, o que ele pretende é viver calma e tranquilamente de forma a atingir um equilíbrio que o conduzirá à felicidade, não pretendendo correr riscos no que quer que faça para que este equilíbrio não se desfaça.
Por fim chega a vida que os deuses levam. Estes também seguem o destino tal como ele é (“ (…) socorrem com o seu exemplo”) e ajudam os homens que nada querem, ou seja, aqueles que tal como eles “nada mais pretendem que ir no rio das coisas”. Rio este que passa, tal como a vida, e que não volta a passar de novo.
Assim este poema transporta em si características pagãs ("deuses") e clássicas ("Lídia", "rio"), a crença no fatum e o equilíbrio de emoções que tão bem caracterizam a poesia de Ricardo Reis.

domingo, 25 de novembro de 2007

Deusa

Vi-te passar, calma e determinada
Segui-te sem saber a paragem
Impulsionado pelo momento
E pelo sentimento.
.
Paro a meio do caminho...
O batimento rápido e ofegante,
Da vida a pulsar em mim,
Alerta-me.
.
O rio está perto. A pesada mão do fado
Paira no ar, trazendo-me
A pacifica melodia
Que brota da águas.
.
A foz pode estar próxima
E a tua passagem, minha Deusa,
Jaz, esquecida. E eu aqui,
Tranquilo, contemplando a paisagem.
Mónica Fernandes